a longevidade de uma cachorra

dorme na maior parte do tempo
treme quando se levanta
desde que ficou viúva, ronca

Anúncios

2

Fazer um poema vegetal todo verde
com os versos revirados para cima
coletores de fótons em rimas
aprisionar calor em carbono
produzir glicose e dar aroma
a sabonetes de glicerina.

Fazer um poema vegetal fibroso
escrito num papiro de palmito
para – sem parar – enviar raízes
abaixo, aos lados, a dentro
até trasbordar o vaso
até enraizar o vazio.

1

Fazer um poema só com silêncio
não como imitação de Rimbaud exilado
nem para nutrir mais um enigma
mas como quem ouviu e não aprendeu

Escrever um poema só com silêncio
acordando sem dizer bom dia
sem separar do sonho a vigília
para passar um café para dois
numa casa onde mora só um

Um poema todo escrito de silêncio
30 versos de silêncios rimados
tal o vazio dependurado no fio
entre as cores estendidas

Fazer um poema só com silêncio
o silêncio que se faz num dia
guardando nos pulmões o ar
para entoar com o pôr do sol
uma sequência de vogais surdas.

A cachorra Preta

um dia
apareceu em nossa rua
sem saída e curta
uma cachorra perdida
faminta e preta

deitada
barriga pra cima
pedia carinho

uivava para lua
enchendo ouvidos
de melancolia peluda

um dia
apareceu em nosso pátio
terreno meio abandonado
um passarinho morto
obra sua

penas na boca
sorriso no rabo
pedido de desculpa

um dia
apareceu em nossa sala
uma cachorra diabética
lambia sua urina
e perdia a vista

deitada
barriga pra cima
pedia carinho